Bicicletas Antigas no Jornal Notícias do Dia

Bicicletas centenárias são relíquias de colecionador em São José

Relíquias ajudam a contar décadas de história de diversas partes do mundo

Mariella Caldas
@Mariella_ND
São José
Marcelo Bittencourt

Hélio Becker tem um acervo com mais de 100 bicicletas antigas e devidamente recuperadas
 
A matéria prima é o ferro, aço ou alumínio. Os pneus são grandes, aro 28. As cores fortes e brilhantes. O banco é de couro. Há acessórios podem ser personalizados, como o farol e adereços para enfeitar ou caracterizar uma época ou data comemorativa. Sua utilidade é a locomoção. Falando assim, até parece a descrição de um carro, mas uma das paixões do morador de São José, o funcionário público Hélio Becker, 50, são as bicicletas.

No acervo centenário, há mais de cem unidades. As duas últimas aquisições têm dezenas de anos de vida, mas nas mãos de Becker estão a somente uma semana. A mais antiga é uma inglesa, da marca Philips (a mesma dos eletrônicos antes produzia bicicletas), fabricada em 1910. Praticamente a metade das bicicletas está restaurada, mas muitas ainda aguardam a chegada de peças que, na maioria das vezes, são importadas.

Há cerca de oito anos, Becker comprou sua primeira bicicleta usada em um ferro velho e começou a restaurá-la. O passatempo se tornou um vício. “Fico madrugadas inteiras na oficina trabalhando”, comenta, junto do seu fiel amigo, Tigrão, um cachorro pitbull que o acompanha pelo quintal enquanto realiza as melhorias nas bicicletas. “Ele (Tigrão), anda pelo depósito com cuidado, passa no meio das bicicletas, mas sequer encosta nelas”, brinca.

Marcelo Bittencourt

Phillips 1910 é de origem italiana e a mais antiga do acervo

 

Características únicas

Unidades fabricadas na Suíça, Alemanha, França, Itália e no Brasil estão na casa de Becker. Entre as marcas mais famosas, é possível encontrar Wanderer, Philips, Mercswiss, Centrum, Bianki, Peugeot, Oxford e as inesquecíveis Monark, Monareta e Caloi. Algumas chegam a pesar 20 quilos, mas segundo o colecionador Hélio Becker, são as mais confortáveis para pedalar.

A ideia da restauração foi surgindo aos poucos. Cada bicicleta pode demorar até seis meses para ficar pronta, tudo depende da rapidez para encontrar a peça que falta. Há unidades que o colecionador adquire em ferros velhos por R$ 200, mas investe cerca de R$ 2 mil para deixá-la novinha. Pesquisando na internet, livros e revistas, Becker encontra as histórias de cada modelo e estuda para restaurá-las, como se recém tivessem saído da fábrica.

Na oficina que ele próprio montou, tem todo o tipo de ferramenta. Ele, que aprendeu a manuseá-los sozinho, diz que não há preço que o faça vender algumas de suas relíquias. “Não restauro bicicleta para fora, todas são minhas. Já rejeitei R$ 10 mil em uma unidade inglesa”, conta.

Marcelo Bittencourt

Monark Brasiliana 64 foi fabricada em homenagem à cidade Brasília

 

Manutenção permanente

Diariamente, Hélio Becker elege uma bicicleta para passear e observar como a antiguidade está rodando. “Tenho tudo organizado para não sair duas vezes com a mesma bicicleta em um curto espaço de tempo. Assim, consigo cuidar de todas”, explica, sem deixar escapar uma de suas preferências, uma Wanderer 1920 que pertenceu ao exército alemão.

Até a segunda metade do século passado, as bicicletas eram usadas para todo o tipo de locomoção, conta o colecionador. “Por isso, muitas tinham o farol como se fosse uma lamparina”, lembra.

Marcelo Bittencourt

Modelo feminino sem a barra horizontal e com proteção na roda traseira para que a saia não fique presa

 

Xodós do colecionador de bicicletas

-Wanderer 1970: usada pelo exército alemão. O farol é aceso via carbureto, uma pedra que provocava um gás e ilumina como uma lamparina

-Nymar 1952: criada em uma região da Suíça repleta de vales, a bicicleta recebeu uma manivela para ser levantada

-Philips 1910: robusta, com peças grosseiras e cheias de estilos. De cor preta, a italiana é a mais antiga do acervo

Marcelo Bittencourt

Wanderer 1970 foi utilizada pelo exército alemão
 

-Monark Brasiliana 1964: a primeira feita com peças brasileiras foi produzida em comemoração a construção de Brasília. A faixa vermelha representa as vidas perdidas, o adesivo da marca lembra os três poderes. O avião recorda o transporte dos materiais e as cores, azul e branca, fazem referência ao céu

-Mercswiss 1930: alemã, foi adquirida praticamente nova, sem desgaste no pedal e banco

-Centrum 1922: a sueca é considerada de luxo por conter detalhes em alto relevo nos varões de ferro que a formam. Se vendida hoje, poderia custar R$ 6 mil

-Monark Ipanema 1970: criada na época da música ‘Garota de Ipanema’, a relíquia foi estampada na capa do CD de Elis Regina

-Bianki 1930: uma italiana que foi a primeira bicicleta de corrida do mundo. Contém um pequeno tanque de óleo para lubrificar a correia, mas ainda não está completamente restaurada

Publicado em 09/07-10:07 por:
Mariella Caldas. Atualizado em 20/07-22:35
 

Exposição na Galeria Guilherme Dobes Ateliê em Jurerê Internacional

Entre os dias 29 de janeiro e 15 de fevereiro de 2011 as bicicletas antigas foram expostas na galeria Guilherme Dobes Ateliê, dentre as relíquias expostas destacou-se a Wanderer Werke de 1930, que pertenceu ao exército alemão, com as peças originais.
 

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